Os tempos confirmam a profecia de Andy Warhol: todos podem ter hoje direito ao seu quarto de hora de fama. Os blogues e os reality shows oferecem aos anônimos sedentos de reconhecimento uma glória tanto mais inebriante quanto fugaz. Aspirantes a artistas de nome próprio variável, confissões escandalosas que fazem subir em flecha as curvas de audiência… não há dúvida de que o ego faz sucesso. Mas não será perigoso encenar assim o ego e privilegiar a personagem em detrimento da pessoa?
Para o psicanalista Jean-Pierre Winter, o ego revelado é um falso ego, um ego fabricado dos pés à cabeça com o objetivo de se mostrar de certa maneira. “Trata-se de um narcisismo mortífero. Não esqueçamos que Narciso se afogou ao tentar agarrar a sua imagem refletida, e o que temos aqui é um narcisismo fundado na imagem. Quando o reconhecimento social efêmero desaparece, nada mais resta ao indivíduo, que se dá conta de que está socialmente morto. O que hoje nos é proposto é uma ideologia de domínio, como se bastasse querermos ser desta ou daquela maneira para consegui-lo. Esta situação gera pessoas adulteradas”, prossegue Winter. Mas a paixão pelo ego não conduz apenas ao desejo de celebridade ou de reconhecimento social: ela apoderou-se de todos nós.
Distinguir-se da multidão, afirmar-se, dar um sentido à vida, encontrar o sentido da vida, descobrir a sua “lenda pessoal”: esta é, atualmente, a demanda mais partilhada – uma demanda que renunciou ao contentamento com uma vida feita de altos e baixos para só querer altos. Be yourself, ordenava o célebre slogan de Calvin Klein, fazendo equivaler o “eu” a um tesouro cuja descoberta nos asseguraria a felicidade eterna.
“A liberdade do indivíduo não é absoluta”, afirma o sociólogo Jean- -Claude Kaufmann. Contrariamente ao que o discurso dominante procura fazer-nos crer, não podemos reinventar as nossas vidas de acordo com os nossos sonhos. Só podemos arbitrar entre diferentes possíveis, escolher uma opção ou outra. E é este poder de arbitragem que se torna decisivo.
Não só inventar totalmente a nossa vida é ilusório, como esta ilusão se pode revelar perigosa, segundo o sociólogo. “Uma das armadilhas mais frequentes da invenção do eu é o entusiasmo anárquico por projetos de vida que nunca se realizarão, o descontrole do nosso pequeno cinema interior. É preciso sonhar e deixarmo-nos conduzir pelo sonho, mas sem abandonar o contato com a vida real, com a felicidade do momento presente.” No livro Mulheres que Pensam Demais de Susan Nolen-Hoeksema, professora de Psicologia norte-americana, ela fala do novo mal que atinge as mulheres: o “pensamento excessivo” ou a “ruminação mental incessante”. “As mulheres passam horas sem fim a remoer ideias e pensamentos negativos.” Preocupadas em gerir com sucesso a vida familiar e a vida profissional, e mais sensíveis que os homens aos discursos “psi”, as mulheres são também mais predispostas a colocar-se individualmente em questão e a trabalhar os campos da culpabilidade.
Será a invasão das nossas vidas pela Psicologia a responsável pela hipertrofia dos nossos egos e pelo sofrimento que dela decorre?
Para o psicanalista Jean-Pierre Winter, o ego revelado é um falso ego, um ego fabricado dos pés à cabeça com o objetivo de se mostrar de certa maneira. “Trata-se de um narcisismo mortífero. Não esqueçamos que Narciso se afogou ao tentar agarrar a sua imagem refletida, e o que temos aqui é um narcisismo fundado na imagem. Quando o reconhecimento social efêmero desaparece, nada mais resta ao indivíduo, que se dá conta de que está socialmente morto. O que hoje nos é proposto é uma ideologia de domínio, como se bastasse querermos ser desta ou daquela maneira para consegui-lo. Esta situação gera pessoas adulteradas”, prossegue Winter. Mas a paixão pelo ego não conduz apenas ao desejo de celebridade ou de reconhecimento social: ela apoderou-se de todos nós.
Distinguir-se da multidão, afirmar-se, dar um sentido à vida, encontrar o sentido da vida, descobrir a sua “lenda pessoal”: esta é, atualmente, a demanda mais partilhada – uma demanda que renunciou ao contentamento com uma vida feita de altos e baixos para só querer altos. Be yourself, ordenava o célebre slogan de Calvin Klein, fazendo equivaler o “eu” a um tesouro cuja descoberta nos asseguraria a felicidade eterna.
“A liberdade do indivíduo não é absoluta”, afirma o sociólogo Jean- -Claude Kaufmann. Contrariamente ao que o discurso dominante procura fazer-nos crer, não podemos reinventar as nossas vidas de acordo com os nossos sonhos. Só podemos arbitrar entre diferentes possíveis, escolher uma opção ou outra. E é este poder de arbitragem que se torna decisivo.
Não só inventar totalmente a nossa vida é ilusório, como esta ilusão se pode revelar perigosa, segundo o sociólogo. “Uma das armadilhas mais frequentes da invenção do eu é o entusiasmo anárquico por projetos de vida que nunca se realizarão, o descontrole do nosso pequeno cinema interior. É preciso sonhar e deixarmo-nos conduzir pelo sonho, mas sem abandonar o contato com a vida real, com a felicidade do momento presente.” No livro Mulheres que Pensam Demais de Susan Nolen-Hoeksema, professora de Psicologia norte-americana, ela fala do novo mal que atinge as mulheres: o “pensamento excessivo” ou a “ruminação mental incessante”. “As mulheres passam horas sem fim a remoer ideias e pensamentos negativos.” Preocupadas em gerir com sucesso a vida familiar e a vida profissional, e mais sensíveis que os homens aos discursos “psi”, as mulheres são também mais predispostas a colocar-se individualmente em questão e a trabalhar os campos da culpabilidade.
Será a invasão das nossas vidas pela Psicologia a responsável pela hipertrofia dos nossos egos e pelo sofrimento que dela decorre?
Para o psicanalista, a paixão atual da nossa sociedade pelo ego e pela sua encenação não passa de uma negação, do desejo de ocultar aquilo que todos tememos: a morte. No fundo, somos instados a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para nos tornarmos livres, magros, jovens, felizes… e imortais, e tanto pior para aqueles que não superarem este desafio. Na nossa cultura de desempenho, os fracassos e o sofrimento tornam-se fonte de culpabilidade, como se tivéssemos feito algo para não os evitar. Não nos esqueçamos de que é também, e sobretudo, nos momentos difíceis da vida que o indivíduo, confrontado com os seus limites, é capaz de atos de verdadeira liberdade.
A nossa sociedade, que valoriza o individualismo, tem medo do sofrimento.O sofrimento é vergonhoso, não deve ser visto. Ora, todos nós sofremos perdas, todos nós temos altos e baixos. Bombardear as pessoas com conselhos para serem felizes torna mais pesado o fardo daqueles que passam por momentos difíceis, aumenta-lhes a dor e o sentimento de culpa por não corresponderem ao que se espera deles. Esconder o sofrimento, cultivar a felicidade como uma planta rara e preciosa: a obsessão do eu não será o caminho mais rápido para o egoísmo? “Sim”, responde o psicanalista Jacques Arènes, “se estivermos convencidos de que podemos construir-nos sozinhos, sem a ajuda de terceiros. Cada um deve encontrar o seu lugar, mas isso só se pode fazer considerando os outros. Hoje em dia, contudo, achamos que não recebemos nada dos outros, que nos construímos sozinhos, sem dever nada a ninguém. E quando nos referimos a eles, é para nos confortarmos na nossa posição de vítima: o meu casamento vai mal, a culpa é da minha mulher; o meu filho tem más notas, a culpa é do sistema de ensino. Na nossa cultura, o outro é o bode expiatório dos nossos problemas pessoais. Podemos pensar em nós sem precisar banir os outros. Basta integrá-los na nossa reflexão. Se várias pessoas que nos conhecem bem nos aconselham num determinado sentido, vale a pena ponderá-lo. Penso que é a capacidade de integrar o olhar do outro que nos impede de ser egoístas. Escutar-nos para melhor ouvir os outros, a sua diferença e a sua riqueza: esta é, sem dúvida, a forma mais sã de pensarmos em nós.
A nossa sociedade, que valoriza o individualismo, tem medo do sofrimento.O sofrimento é vergonhoso, não deve ser visto. Ora, todos nós sofremos perdas, todos nós temos altos e baixos. Bombardear as pessoas com conselhos para serem felizes torna mais pesado o fardo daqueles que passam por momentos difíceis, aumenta-lhes a dor e o sentimento de culpa por não corresponderem ao que se espera deles. Esconder o sofrimento, cultivar a felicidade como uma planta rara e preciosa: a obsessão do eu não será o caminho mais rápido para o egoísmo? “Sim”, responde o psicanalista Jacques Arènes, “se estivermos convencidos de que podemos construir-nos sozinhos, sem a ajuda de terceiros. Cada um deve encontrar o seu lugar, mas isso só se pode fazer considerando os outros. Hoje em dia, contudo, achamos que não recebemos nada dos outros, que nos construímos sozinhos, sem dever nada a ninguém. E quando nos referimos a eles, é para nos confortarmos na nossa posição de vítima: o meu casamento vai mal, a culpa é da minha mulher; o meu filho tem más notas, a culpa é do sistema de ensino. Na nossa cultura, o outro é o bode expiatório dos nossos problemas pessoais. Podemos pensar em nós sem precisar banir os outros. Basta integrá-los na nossa reflexão. Se várias pessoas que nos conhecem bem nos aconselham num determinado sentido, vale a pena ponderá-lo. Penso que é a capacidade de integrar o olhar do outro que nos impede de ser egoístas. Escutar-nos para melhor ouvir os outros, a sua diferença e a sua riqueza: esta é, sem dúvida, a forma mais sã de pensarmos em nós.
Até a próxima...
Adorei, Cláudia... rende um bom tempinho de reflexão... sobre a nossa personalidade, real identidade.
ResponderExcluirParabéns pelo texto!!
ah..saudades de vc e das maravilhosas aulas de piano!
bjos
Cláudia